Home Artigos Amoreiras

A Mega Competição das Ventosas

Ventosas nas Amoreiras

Ou: " Os homens do bloco a escalarem artificial de 3 largos"

A primeira vez que ouvi falar da Mega Competição das Ventosas foi naquele que é conhecido por fórum do Catita. Julguei que estavam a brincar. Só me convenci que era verdade quando comecei a ver caras bem conhecidas da escalada desportiva em spots da SIC que anunciavam o evento. Agora já posso dizer, como o outro, que desde que vi um porco a andar de bicicleta…

Inicialmente marcada para o dia 5 de Janeiro, seria adiada 2 semanas devido ao mau tempo. O dia 19 de Janeiro de 2003, embora precedido de um daqueles dias de chuva intensa que têm marcado este Inverno, acordou limpo, anunciando aquele que seria o mais mediático de todos os acontecimentos, não trágicos, a envolver escaladores desportivos desde que me entendo.

Foi com elevada ansiedade que fui vendo aproximar-se o grande dia, até porque, por imperativos de agenda, fiquei entregue à função de ama seca, a cuidar da minha pequena Madalena e da restante lide doméstica, pelo que não tive outro remédio senão acompanhar a tarde televisiva da SIC. A televisão esfregou o ecrã estremunhada quando premi o botão 3 do comando às 14:00h de um Domingo de Sol. Não costumo fazê-la trabalhar ao fim de semana, muito menos com luz do dia.

Poucos minutos depois (ainda só tinha dobrado 2 ou 3 pares de meias) aparecem os apresentadores da emissão, sobre os quais me demito de fazer qualquer tipo de comentário, por gratidão à estação que lhes dá abrigo. Devem ter tentado explicar o que se ia passar, mas eu estava distraído pela quantidade de gente conhecida que se via atrás deles, em movimentos nervosos que não descobri se eram de frio ou necessidade de um lavabo. Sei bem o que custam aqueles minutos de isolamento que antecedem a entrada em competição, sobretudo se a casa de banho não está ao alcance, como parecia ser o caso. Via-os de luvas calçadas, com 2 pares de ventosas penduradas nos arneses. Não tardou muito a soar o apito que abriu aquela louca corrida.

O mote desta prova era: “Quer levar um Rio para casa? Largue o balde e traga as ventosas”. A ideia parecia mais disparatada do que veio a verificar-se e consistia em escalar a Torre 1 das Amoreiras recorrendo a ventosas de vidraceiro. Dir-se-ia que o arquitecto Taveira, quando desenhou o edifício tinha no caderno de encargos uma nota apontando para uma competição de escalada a realizar alguns anos mais tarde. Apenas foram necessários alguns truques da organização para tornar a torre escalável em tempo televisivo. As medidas eram as exactas para extenuar o mais forte dos escaladores nacionais: cerca de 75 metros no total, com um subprumo de 3 metros quase no final. Se tivesse sido desenhada de propósito não seria melhor.

A estreia desta bizarra prova coube ao Leo, ao Fred, ao Catita e ao Flau. Tendo sido os primeiros, tiveram que inventar as técnicas de progressão. Nenhum dos 4 chegou ao topo, de acordo com a seguinte ordem de quedas: Flau, Leo, Catita e finalmente o Fred, já no extraprumo. Ficámos sem saber se aquela zona seria ou não ultrapassável.

A segunda manga foi disputada por mais 4 atletas: Sílvio Morgado, André Neres, Américo e Zé Miguel Abreu. O andamento desta segunda manga foi francamente mais competitivo. O Américo deslocava-se à velocidade do caracol, certamente mais habituado ao ritmo do bloco do que ao desta bizarra trepada de polvo, acabando por ser o primeiro a cair. O próximo seria o Sílvio, já muito perto do fim. O André em primeiro e o Zé Miguel em segundo encarregaram-se de provar que era possível ultrapassar aquele extraprumo suspensos de ventosas. O programa estava salvo e o Francisco Ataíde, apresentado como “director da prova”, deve ter respirado de alívio. Na pausa de publicidade que se seguiu reparei que a tensão nervosa, congelando-me o olhar no pequeno ecrã, me havia feito dobrar as boxers com forma de meias e vice versa.

Passámos à terceira manga, a das meninas. Participaram a Kimie, a Sara Mouro, a Sandra Albuquerque e a Susana polaca. A Kimie arranjou uns truques para facilitar a progressão: fez um nó a meio do estribo e utilizou 3 ventosas em lugar de 2. Pareceu-me que um escalador com prática de escalada artificial teria tido uma melhor performance do que alguns destes desportivos. De inicio a Kimie subia rápido, mas cedo a Sara começou a ganhar terreno. Como elas estavam a levar mais tempo do que os rapazes da manga anterior, eis que entra o Super Joe Reed para animar as hostes, enquanto íamos vendo num pequeno quadrado como se desembrulhavam as escaladoras. O voador da lambreta descobriu a forma mais rápida de atravessar a Av. De Roma em hora de ponta, saltando de um telhado para outro. Depois de várias tentativas, lá levou a sua máquina (“de liquido frio” – certamente uma tradução literal de liquid cooled) de um telhado para o outro. Voltámos à prova feminina na qual a Kimie já tinha descolado das Amoreiras (este pessoal do Norte prefere o Via Catarina) deixando a Sara em destacado primeiro lugar. Audiências oblige, tivemos que gramar outro record do guiness com um sky diver a atravessar os céus a grande velocidade, envergando o fato-asa enquanto continuávamos a seguir a lenta progressão da Sara. A Sandra, inspirada pelo voo do fato-asa descolou também, deixando a Sara sozinha na torre de vidro. Embora já vencedora desta manga, insistiu em seguir até ao topo, forçando a SIC a enfiar mais um pacote de anúncios. Pela minha parte aproveitei para mudar a fralda à Madalena e pôr o biberão a aquecer.

Finda a publicidade passou-se à ultima manga com os seguintes participantes: Filipe Silva, Nelson Menezes, Mário Albuquerque e Ricardo Macau. O Macau cedo começa a ganhar terreno, fruto de uma envergadura de 747 e boa forma física. Apareceu também uma imagem do Eduardo Costa, um dos asseguradores no topo do edifício, estafado de recuperar tanta corda.

Enquanto o pessoal se esforça, aqui vai mais um saltito de lambreta sobre não sei quantos carros. O pobre Robbie Knievel, aqui baptizado de Canival aterrou sem novidades, batendo mais um record do Guiness. Nas Amoreiras o Nelson é o primeiro a voar. O Filipe e o Macau acabam por ter que disputar a mesma escada, prejudicando o Filipe que, tentando recuperar terreno, acaba por se soltar das vidraças já mesmo ao virar do extraprumo. Entretanto o Macau tenta recuperar sentado no estribo. O trainer Mário aproxima-se em grande velocidade, mas o Macau chega primeiro, vencendo a manga.

Enquanto o Macau recuperava do esforço demos um salto ao Alaska para aprender como se esquia às cambalhotas. Logo depois entram-me pela sala dentro um vasto grupo de sky divers que pretendiam fazer uma formação de queda livre que merecesse figurar no livro do Guiness. Num detalhe de claro mau gosto, o funeral de um dos sky divers, falecido durante a tentativa, foi interrompido com uma mensagem do apresentador do Alto Risco a informar que faltavam 2 minutos e meio para a grande final.

Quando voltámos a Lisboa havia um silêncio pesado em redor do prédio. Até os meus gatos seguiam atentamente o que se passava nas Amoreiras. Eu, petrificado de ansiedade, fui avisado pelo cão de que estava a colocar o biberão numa bochecha da Madalena. O despique renhido entre o André e o Macau prendia-lhe de tal forma a atenção que nem ela dava pelo engano. A Sara e o Fred seguiam mais lentos, mas o Macau e o André disputavam o Rio com todas as energias. O André, aproveitando a fadiga acumulada pelo contendor, ganhou terreno, enquanto ia espreitando a medir a vantagem. Cá em casa, até o cão já estava em pulgas.

Aquele último troço vertical parecia infinito. Foi um bom momento de televisão para quem seguia o evento desde o início. O André agarra finalmente as 2 presas colocadas no final do prédio, ganhando um formidável Kia Rio Prestige, apesar de não ter carta de condução.

Lá tivemos que ver o merecido beijo da Sara e do Ricardo, e vá lá que não se lembraram de lhes pedir mais nada. Se a audiência estivesse mais baixa…

Enquanto o André descia para se juntar aos pais, passou o desfile da mãe, da irmã, da namorada, do tio, da prima, beijos e abraços, conversas de encher chouriços, etc. Enfim, televisão é televisão e antes isto do que a casa do Toy ou o Big Brother.

Pessoalmente acho que o balanço final foi muito positivo. A escalada, mesmo numa versão muito adulterada ocupou horas consecutivas num horário sério. Não podemos ver o evento como uma competição, mas sim como um show de televisão e esse objectivo foi claramente atingido.

ZM

Zé Maria - zm@gmesintra.com

Topo

Mais fotos
gmes©2003 | www.gmesintra.com | Webmaster: zm@gmesintra.com | E-mail: gmes@gmesintra.com